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Urbion - resenha

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Mensagem por tiagovip em Sex Set 20, 2019 2:39 pm

Você desperta e olha em volta, zonza e sonolenta, assustada também quando percebe que estava deitada na grama cinzenta ao lado de um precipício. Do alto, na posição privilegiada que se encontra, você observa que o céu é róseo perto do horizonte em toda a volta, e de tonalidade azul-escuro até o negro como ônix, nos locais onde as nuvens de tempestade, rugindo trovões e lançando raios, não cobrem. Abaixo, dentro de um vale cercado por penhascos de alturas impossíveis, que parecem vivos devido ao bruxuleio das sombras, aninha-se um castelo, não, é mais uma fortaleza de bastiões instransponíveis em cima de um morro e cercado por centenas de muros e centenas de fossos de águas pútridas. Um relâmpago ilumina a escuridão do vale e você tapa sua boca com suas mãos para conter o grito.

Os penhascos não estão vivos, mas as sombras estão. Milhares, talvez milhares de milhares, que escorriam pelas frestas e deslizavam pelas fendas. Você as conhece, viu-as antes no Castelo de Qui Tever. Não eram sombras comuns: esticadas demais, com grandes mãos e pés que terminavam em garras e havia uma aura de malícia e malevolência que os envolvia que, você sabia, poderiam destroçar a mente das pessoas comuns. Sua fortuna era nunca

O chão do vale e mesmo além dele, cobrindo a planície sem-fim, estava apinhado de sombras que se moviam em ondas na direção do castelo-fortaleza, chocando-se com os muros e superando-os pela força dos números, como uma praga de insetos avançando sobre uma plantação. Um contingente de sombras tentava defender os muros, iniciando batalhas renhidas em incontáveis pontos. Aquelas que corriam pelas paredes escarpadas do penhasco saltavam em tal quantidade que pareciam uma cachoeira negra e translúcida: uma torrente de fúria que represa alguma poderia conter.

A cada instante as atacantes se aproximavam do castelo-fortaleza. Da torre de menagem saiu, em revoada, uma corrente contínua de corujas que, tantas eram, parecia unir o céu a terra, alcançado, com seu vôo, a tempestade de rosnava. Os baluartes, antes inexpugnáveis, foram superados. Porém, ali embaixo, uma figura, maior e mais concreta que a miríade de sombras a sua volta, ergueu nas mãos algo que refulgiu e assustou as sombras, afastando-as ao ponto de abrir um espaço naquela multidão.

Você sabe que é importante ver quem é esse indivíduo, entretanto a distância lhe previne de discernir com precisão. Estranhamente, enquanto você foca a sua visão a imagem parece se avizinhar, como se você estivesse voando naquela direção, porém sem sair do lugar. Ao ver quem é a figura coroada por si mesma, um horror gélido toma seu corpo e você não consegue segurar o grito.

A atenção daquele que agora tem a cabeça ornada pela coroa se volta para você. Não na sua direção, mas em você, enxergando-te como se estivesse ao lado dele. Você não ouve o que ele pronuncia quando abre a boca e aponta para sua pessoa, mas a ira na face dele não lhe dá margem para dúvidas sobre as intenções de seu comando.

As sombras uivam e guincham enquanto giram e correm para lhe pegar e despedaçar-te. Você tenta fugir, todavia seus pés afundam na grama, como se estivesse num lodaçal. Suor desce pela sua fronte devido à exaustão causada pelo esforço para escapar e, mesmo assim, as sombras gritam pelo seu sangue e saltam sobre você, que se encolhe chorando.
De olhos fechados você não viu quando um bico amarelo agarrou a sombra mais próxima de você e a partiu ao meio, nem o momento em que a grande asa negra de um melro-preto afastou as outras que estavam mais perto, lançando-as longe. Sentiu, no entanto, quando patas fortes, pegaram você e lhe retiraram do lodaçal. Beogram subiu, batendo vigorosamente as asas e, lá embaixo, berrando blasfêmias e ameaças, estava Hanter, com a cabeça coroada.

Você despertou para a realidade.



URBION - O JOGO

Urbion - resenha Pic1599589



Geral:
Urbion é um jogo solitário (ou para dois jogadores) em que o objetivo é equilibrar, no mundo onírico, os Pesadelos (Incubi - negativo) e os Sonhos (Sognae - positivo), de forma que haja paz na Cidade dos Sonhos. Porém o Caos tentará, constantemente, por tudo a perder, promovendo o desequilíbrio, a dissensão e os conflitos de volta. Como líder da Cidade dos Sonhos é seu objetivo manter os distritos (e os Incubi e os Sognae) em harmonia.


Regras:
Urbion é um jogo leve, feito pelo mesmo designer do Onirim - Shadi Torbey. Além disso, penso eu, que é tão ou mais importante que o artista do jogo também seja o mesmo: Élise Plessis. Principalmente por é a Élise que imprime o tom no Onirim e, tanto mais, no Urbion: os cenários oníricos, com o estranho e o belo misturados juntos. Agora, exceto pelo tema (mundo dos sonhos) e pela arte, o Urbion é bastante diferente do Onirim.

No Urbion seu objetivo é balancear os distritos da cidade, jogando cartas de Sognae (positivo) do lado direito dos distritos e de Incubi (negativo) do lado esquerdo. Essas cartas têm números, os quais você precisa equilibrar. O set up do jogo é o seguinte: sorteiam-se quatro distritos e, para cada um, são reveladas do baralho de compra duas cartas, que são posicionadas, de acordo com o que sejam (Incubi ou Sognae), em um dos lados dos distritos - estas cartas não precisam respeitar os ícones dos distritos. Feito isso, num turno de jogo você deve:

- abaixar uma carta (em um dos lados de algum dos distritos, respeitando a regra de quem em nenhum dos lados de qualquer dos distritos pode ter mais do que três cartas, e que cada distrito conta com quatro ícones, dois para o lado positivo, e dois para o lado negativo: a carta jogada deve respeitar um desses ícones para ser colocada no distrito);

ou

- descartar uma carta (isto ativa um de dois efeitos, à escolha do jogador: a) trocar cartas que estejam do mesmo lado - por exemplo, é possível trocar uma Sognae +2 do primeiro distrito por uma Sognae +4 do terceiro distrito; estas cartas trocadas não precisam respeitar os ícones das cartas de distrito); b) estabelecer balanço: um ou mais distritos que estejam com seus lados equilibrados podem ser pontuados. Se isto ocorrer, retiram-se os distritos balanceados e esses são substituídos por novos, tal como no set up: coloca-se o distrito e pega-se duas cartas do baralho, colocando-as nos lados respectivos). É permitido usar a ação de descartar sem aplicar efeito algum, apenas para descartar mesmo.

Após abaixar uma carta num distrito ou descartar, o jogador compra uma carta para repor a que foi utilizada.

Basicamente, é isso. Simples, não?

Agora, eventualmente irão surgir do baralho de compra as cartas de Caos. É possível lidar com elas de três maneiras:

- adicioná-la em algum distrito, no lado que esteja mais forte (por exemplo: no lado Incubi há duas cartas - uma -2 e uma -3, enquanto do lado Sognae há uma carta de valor +4. A carta de Caos, se colocada neste distrito, deve ser posta no lado Incubi, por ali estar -5 contra +4) - as cartas de Caos valem +5 ou -5, dependendo do lado em que estiverem;

- descartar as cartas de ambos os lados de um distrito que esteja balanceado;

- descartar as próximas quatro cartas do baralho de compra (se alguma dessas 4 cartas for uma de Caos, aplique os efeitos dela, uma após a outra, como se a tivesse comprado normalmente do baralho).

O jogo segue dessa maneira: baixar/descartar, comprar uma carta, aplicar os efeitos das cartas de Caos quando ela aparecer, até que tenha-se conseguido equilibrar todos os 12 distritos (vitória) ou até que o baralho de compra tenha esgotado e seja necessário comprar uma carta (derrota), sem que os 12 distritos tenham sido balanceados.


Urbion - resenha Pic1394714
Profundidade:
Ainda que ambos os jogos dividam a mecânica de pressione-sua-sorte, o Urbion aparenta ter mais altos e baixos do que o Onirim, principalmente pela ausência das cartas de Chave, as quais no Onirim podem ser usadas para obter algum controle do baralho de compra, além de serem uma arma contra as cartas de Pesadelo. Porém, no Onirim, você basicamente tem só duas opções de carta para jogar: uma de símbolo diferente da última usada na sequência, ou uma carta de Chave para obter os efeitos especiais desta, por isso controlar o baralho é uma necessidade maior no Onirim do que no Urbion, pois neste os quatro distritos fornecem 8 espaços nos quais adicionar uma carta, e as cartas vão de -1 a -3, para as Incubi, e de +1 a +4 (mas sem o valor valor de +3) para as Sognae, fazendo com que a decisão mude de "que carta eu vou descartar e que irá menos me afetar" (que é a decisão mais comum no Onirim) para "qual carta eu coloco e onde". Assim, a sensação de controle em ambos os jogos parece ser a mesma - mas, realmente, não o é, por causa das cartas de Caos.

Simplesmente não há maneira de evitá-las. Elas sempre causarão um de seus efeitos e, quase sempre, eles serão ruins. Os Pesadelos do Onirim são sempre ruins, sempre, mas há uma maneira de evitá-los (as cartas de Chave). As cartas de Caos também sempre serão ruins, mas, como dito, não há como evitá-las. Isso nem mesmo é temático, já que o Caos, por definição, às vezes o ajudaria, afinal, é algo caótico, tanto positivo quanto negativo, tanto bom quanto mau. Direto da caixa de jogo é assim que é e pronto. Mas, claro, há maneiras de lidar com isso:

a) Fazer nada. Use as cartas de Caos como escrito nas regras e seja feliz;

b) Use-a para descartar as cartas ao redor de um distrito não equilibrado, no qual não hajam cartas de Caos - isso acelera o final do jogo (pois pode ser preciso usar mais cartas para balancear o distrito agora do que seria antes), mas nem sempre será ruim, pois em alguns distritos a situação poderia estar já quase irreversível, e começar do zero é realmente uma ajuda - é bom frisar, no entanto, que essa opção além de substituir o efeito normal de descartar cartas ao redor de um distrito, basicamente elimina a opção de descartar as próximas 4 cartas do baralho, pois, usualmente, esta opção de descartar as cartas ao redor de um distrito não equilibrado será mais útil e menos perigosa;

c) Se não há uma opção legal para adicionar a carta de Caos (seja porque todas os distritos estão balanceados, ou porque em cada um há uma carta de Caos), a carta de Caos é descartada sem efeito.

Aviso que sempre joguei com a opção A, mas a opção B e C podem ser utilizadas caso o jogo torne-se frustrante para você. Agora, eu uso o jogo como escrito por causa de uma mudança na forma de encarar a vitória e a derrota: eu simplesmente não considero deixar de equilibrar os 12 distritos como uma derrota. O objetivo com que jogo é tentar balancear o máximo de distritos possível. Assim, equilibrar 10 é diferente de 9, ou 8. Ou seja, é jogar pelo máximo de "pontos", não por vencer ou perder. O máximo de pontos é 12, então vê-se quão próximo disso consegue-se. O desafio, portanto, muda de cara e, com isso, o jogo não torna-se frustrante (já que tudo parece vitória, só que algumas melhores do que outras). Em todo caso, digo que, em 27 partidas até o momento, consegui a pontuação máxima somente 2 vezes.

A curva de aprendizado do Urbion não é de forma alguma severa, mas começa-se, após uma série de partidas, a ver que certas cartas são mais relevantes do que outras, e que é possível jogar antecipando a vinda das cartas de Caos, até de modo que uma delas sirva para anular outra - tornou-se costumeiro após um tempo conseguir equilibrar distritos com três, às vezes quatro cartas de Caos. Nada excepcional, mas creio que jogo um tanto melhor hoje, e tenho mais chance de pontuar mais distritos, do que quando comecei a jogar, o que é um ponto positivo.


Tema:
Estou usando os nomes Incubi e Sognae em respeito ao jogo, mas a verdade é que, como o Onirim, o Urbion é basicamente um jogo abstrato. Se as cartas fossem compostas exclusivamente por números e ícones como quadrados, triângulos, círculos, em nada a mecânica mudaria. O desafio de mudar completamente o tema sem mudar uma vírgula das regras, é facilmente aplicado aqui. O jogo poderia sobre transporte público, com cada bairro tendo uma demanda (negativa) e a Prefeitura tendo que fornecer a capacidade de transporte (positiva) de forma que a região esteja atendida e equilibrada - aqui as cartas de Caos seriam greves, ou ônibus quebrados, ou acidentes na avenida, que colocam pressão no atendimento. Poderia ser sobre um hospital e sua várias alas tendo que se virar para atender o fluxo de pacientes - o Caos ocorre quando surgem vários feridos de algum acidente (que deixou o transporte num caos). Poderia ser sobre uma empresa equilibrando a necessidade de lucro e a de atender os clientes com produtos de qualidade, e o caos vem de flutuações no mercado de ações, ou da perda de alguma carga de produtos devido a um acidente na estrada (que deixou vários feridos e travou parte do transporte público).

Enfim, o tema, como é caso comum, existe porque é mais fácil vender o jogo com um tema do que sem.


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Produção:
Neste ponto não é muito o que falar sobre o Urbion. É uma caixa com cartas. As cartas são padrão, com boa gramatura, e a caixa faz o serviço, com um bônus: as cartas voltam para dentro dela mesmo com sleeves! Fica um pouco apertado, verdade, e a tampa um tanto levantada, porém, no geral, cabe tudo e sem forçar as cartas. Excelente. O manual é composto de duas folhas, separadas, coloridas - nada de especial e eu preferiria que viesse em formato de livreto ou numa única folha com dobras, tal como no Hanabi (da edição americana).

Como no Onirim, o Urbion vem com cartas para duas expansões: The Books of Powers (O Livros dos Poderes) e Arch-Squares & Metas (Arqui-praças & Metas) - sendo que, esta última a tempos eu uso dentro do jogo base e não jogo mais sem: ela adiciona 4 distritos (praças) "coringas", em que cartas que qualquer símbolo podem ser adicionadas, tornando, assim, necessário equilibrar agora 16 distritos, e como contraponto, ela inclui no baralho de compra uma porção de cartas que de um lado valem como Sognae (positiva) e, de outro, como Incubi (negativa), ajudando bastante em certos momentos e permitindo maior maleabilidade.

A arte do jogo, como já mencionada, cumpre particularmente bem sua função.


Diversão:
Urbion é um jogo cuja diversão provém do desafio imposto pelo jogo, tentando montar um quebra-cabeça com levíssimo componente matemático, sem ver nem poder usar todas as peças. Como mencionei, se visto de maneira polarizada - vitória/derrota - o jogo pode, rapidamente, tornar-se frustrante, pois, pelo menos para mim, a taxa do que seria considerado vitória (equilibrar todos os distritos) é ridiculamente baixa, e isso é potencializado pelos efeitos das cartas de Caos, pois é possível escolher um dos efeitos ruins, mas ela sempre aplicar-se-á, sem opção de poder evitá-la (no máximo é possível preparar-se para ela, deixando certos distritos desbalanceados justamente para a função de colocar a carta de Caos ali).

Então torno a repetir que, para mim, funcionou muito bem transformar o jogo numa disputa por pontuação, com algumas sendo maiores, outras menores, saindo da dicotomia de vitória/derrota. Assim, 11 cidades será uma pontuação alta, merecedora de comemoração até, ao invés de só mais uma derrota como qualquer outra.

Urbion pode ser jogado, de forma cooperativa, em até 2 jogadores, o que, penso eu, pode ser ideal para casais ou aqueles que usualmente tem só um parceiro para jogar e não contam particularmente com muito tempo. Porém, abstenho-me de comentar sobre essa opção por nunca tê-la usado. No entanto, tendo como base o que ocorre no Onirim, deve funcionar bem, sem quase modificar como o jogo funciona.


Vale a compra?
Urbion é um jogo leve, com alto grau de desafio (que pode chegar a ser frustrante), onde uma partida inteira demora, usualmente, entre 15 a 25 minutos. O jogo é independente de idioma (é, claro, necessário ler as regras em inglês) e altamente portátil - cabe, sim, no bolso - em dois sentidos, pois o preço dele fica num agradável US$ 14.99 (ou US$ 9.99 nas lojas online).

Aviso que o Urbion exige mais espaço para ser jogado do que o Onirim: os quatro distritos precisam ser dispostos um em cima do outro, e precisa haver espaço para três cartas de cada lado dos distritos. Mesmo assim, isso não é muito, por certo.

Para quem tem o Onirim, ao qual tracei tantas comparações, é preciso ter o Urbion? Há espaço para ambos na mesma coleção? Bem, os jogos são completamente diferentes na questão das mecânicas. A sensação de jogo entre um e outro também diferem. Por outro lado, o espaço de tempo que ambos ocupam é o mesmo e o "peso" das regras é basicamente idêntico. É certamente possível ter ambos na mesma coleção e estar contente com isso (eu tenho e estou), mas entre os dois o Onirim é, para mim, o desenho superior, mais polido e com melhor jogabilidade. O Onirim também perde a disputa contra outro pequeno jogo solitário "famoso": o Friday, que ocupa ligeiramente o mesmo espaço de tempo (contudo, mais para o alto, entre 25-35 minutos), porém, dos três, o Friday é mais complexo, com certa dependência de linguagem e pode ocupar um espaço de mesa ainda maior. Em todo caso, no final das contas, os três jogos são boas opções para jogos solo.

Então, para resumir, o Urbion rápido e inteligente, muito bom para quem quer jogar algo em seu horário de almoço, ou naqueles momentos de ócio criativo. Porém, é inegável que não está no topo das opções, sendo, somente, uma delas.

E é isso!

Abs,


Crédito das imagens (em ordem):
cnidius
Hex_Enduction_Hour
cnidius

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