Love Letter - resenha

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Mensagem por tiagovip em Sex Jul 26, 2019 3:42 pm

A Princesa lia, com suas emoções escondidas pelas sombras que a luz da vela tremeluzente não conseguia afastar. Era somente o início da noite, mas o dia fora escuro, as nuvens cinzas pendendo por sobre a cabeça de todos, ameaçando com uma chuva, promessa que só foi cumprida perto do final da tarde, porém cumprida foi com esmero: era uma tempestade como aquelas dos livros. E uma que fazia jus ao nome da cidade sobre a qual ela despencava. Em Tempest, há muito dos dias vinham sendo escuros, e nem todos por um motivo tão natural. A Princesa, ainda usando o vestido da tarde, acompanhava as linhas com palavras sussurradas, pois sentia que a voz tornava a mensagem mais real, mais próxima e calorosa.

"Para todo o sempre...", proferiu. Então a porta de seu quarto foi aberta. Era a Condessa. A Princesa cobriu a carta com um pano e, de pronto, levantou-se para receber sua amiga. "Trouxe-me?", perguntou, incapaz de se conter.

"Espere-me fechar a porta", a Condessa alertou. Após fechá-la, voltou-se para a Princesa, mostrando um semblante entristecido. "Sim", disse. "Está aqui."

"Deixe-me ver, deixe-me!", pediu a Princesa, como se fosse uma criança, o que não mais era, mas a vida no castelo não lhe proporcionara muito para que amadurecesse.

"Calma, querida", a Condessa falou. "Foi trabalhoso trazê-la até aqui. Precisei usar daquele Barão grudento para passar pelo Príncipe. Seu irmão anda mais irritante que o normal, mas dei um jeito nele."

"Não seja cruel, com ele, falando desse modo, e comigo, sem entregar a mensagem!", retrucou a Princesa, sentando na cama de dossel, enquanto a Condessa servia-se de vinho e de uma tâmara.

"Calma, meu doce, preciso me recuperar de minhas provações", riu-se a Condessa. Mas a risada foi curta, interrompida por passos pesados que aproximavam-se rápido pelo corredor. As passadas cessaram diante da porta do quarto da Princesa e, logo em seguida, houve uma batida leve na porta.

"Sim?", questionou a Princesa.

"Sua Altez-", a voz de mulher que vinha de fora foi cortada por um resmungo alto e, então, substituído por uma voz truculenta, rascante, uma que a Princesa conhecia tão bem quanto a dela própria.

"Ela é a minha filha, não preciso esperar fora da porta, não quando tem quem me espere", falou o Rei, abrindo a porta sem se anunciar. A Princesa corou como um botão de rosa e a Condessa deu dois passos para trás antes de se ajoelhar. O Rei olhou para a filha e a Condessa. "Saia", disse para a Condessa, que apenas meneou a cabeça e, ao sair, deu um breve olhar de soslaio para a Princesa, que mordia o lábio. O Rei avaliou a filha, que mantinha a cabeça abaixa em respeito.

"Está bom o suficiente", o Rei falou. "Venha, tenho alguém para lhe apresentar."

"Quem?", a Princesa perguntou, com mais do que um toque de rebeldia na voz.

O Rei deu-lhe um olhar frio. Sem novas palavras ambos saíram do quarto para o corredor, onde uma das Damas de Companhia da Princesa aguardava, que fez uma mesura ao Rei e ficou para trás, para cuidar e preparar o quarto para a noite. A Princesa e o Rei seguiram pelo corredor até sumirem após a curva.

Lá fora a tempestade continuava a cair.



LOVE LETTER - O JOGO

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Geral:
Love Letter é um jogo de dedução e blefe. Os participantes assumem o papel de pretendentes à mão da Princesa, mas ela encontra-se limitada às dependências do castelo, sem acesso à maioria das pessoas devido à traição cometida pela Rainha, ato que deixou o Rei razoavelmente paranoico. Então, os pretendentes necessitam enviar mensagens de apoio, amor e paixão para a Princesa e, para que as mesmas cheguem até ela, eles se utilizarão do auxílio das pessoas mais próximas à Princesa. Aquele que for mais bem sucedido em fazer suas missivas alcançarem os olhos da Princesa, terão a preferência dela para quando a época da escolha do noivo real ocorrer. Mas, claro, os seus oponentes irão tentar impedir que suas cartas vão a qualquer lugar além do fogo!


Regras:
As regras do Love Letter são extremamente simples e fáceis de serem ensinadas, pois podem ser resumidas em uma frase: no seu turno o jogador compra uma carta e, então, deve usar uma carta. Pronto, é isso. Rápido, não? Tem mais, claro, porém é aquilo que o jogador efetivamente fará: comprar uma carta e usar uma carta. Estendendo isso:

- Na preparação do jogo, as dezesseis cartas são embaralhadas, uma é deixada de fora, e cada participante recebe uma carta e o jogador inicial recebe mais uma, ficando, então, com duas;
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- O jogador inicial escolhe uma das duas cartas para usar e a revela, aplicando o efeito dela. Os tipos de cartas são:

1 Guarda (5): o jogador escolhe um oponente e nomeia uma carta (exceto uma outra Guarda), se o oponente tiver tal carta em mãos deve revelá-la e descartá-la, sendo, então, eliminado daquela rodada;
2 Padre (2): o jogador escolhe um oponente e vê, secretamente, a carta da mão dele;
3 Barão (2): o jogador escolhe um oponente e, então, ambos comparam as cartas que têm em mãos. Quem tiver a carta de maior valor numérico, vence e elimina o outro da rodada. Se ocorrer um empate, nenhum dos dois é eliminado;
4 Dama de Companhia (2): protege o jogador que a revelou de qualquer efeito de cartas até que a vez da partida volte para este jogador;
5 Príncipe (2): o jogador escolhe um oponente, ou a si mesmo, e tal pessoa deve descartar a carta que tem em mãos e comprar uma nova (tal descarte não elimina o jogador, exceto se a carta descartada for a Princesa);
6 Rei (1): o jogador escolhe um oponente e ambos trocam de cartas;
7 Condessa (1): esta carta tem um poder passivo - se ela estiver junto da carta do Rei ou do Príncipe, ela deve ser descarta imediatamente. Isso não impede que ela possa ser descartada a qualquer outro momento;
8 Princesa (1): também tem um poder passivo - se for descartada, por qualquer motivo que seja, quem a descartou está eliminado da rodada.

Os números entre parênteses referem-se à quantidade de cartas de mesmo tipo que existe no baralho. A rodada termina quando:
- todos os participantes, exceto um, tiverem sido eliminados. Neste caso o vencedor da rodada é o jogador remanescente;
- a pilha de cartas de compra é exaurida. Neste caso, todos os jogadores ainda participando revelam a carta que tem em mãos e aquela com o maior número vence.

A partida segue até que um número pré-determinado de rodadas sejam vencidas por um mesmo jogador e, quando isto ocorrer, este será o vitorioso, tendo, afinal, conquistado o coração da Princesa!


Profundidade:
É pouco significativa. Usualmente a pessoa entende a dinâmica do jogo durante a primeira rodada da partida e, a partir daí, só um ou outro erro eventual acontece, normalmente envolvendo a Condessa (e, com menor frequência, o Rei e o Barão). O Love Letter exige só um pouco de três coisas: memória, controle de emoções e empatia.

A parte da memória é para lembrar a carta que você viu com o Padre nem dois minutos atrás, para rememorar a carta que você tinha em mãos antes de trocá-la pelo uso da carta do Rei, e, principalmente, para lembrar qual carta cada um usou na vez anterior - isto é relevante para estimar qual carta não foi usada. Não é nem mesmo necessário lembrar as cartas que já foram reveladas, pois elas são informação aberta e podem ser consultadas (ainda que eu, para que o jogo continue ágil, incomode um jogador que fique tempo demais - demais = qualquer coisa acima de 15 segundos - mexendo nas cartas sem efetivamente usar uma carta).

O controle de emoções é um tantinho mais complicado. Serve para não dar bandeira de que está com a Princesa em mãos. Ou fazer cara de estátua quando descarta a Condessa. Será que ela foi descartada por causa da presença do Rei ou do Príncipe? Ou é só malandragem? Também ajuda para nomear com a Guarda a Condessa, tendo a mesma em mãos, ao melhor estilo migué. É aqui que entra a parte do blefe, de tentar enganar seus oponentes levando-os a tomar decisões erradas em seu benefício.

Por fim, a empatia serve para superar essa barreira de enganos e ver nos olhos do outro que a Dama de Companhia está ali, mas a pessoa está confiando que qualquer um que pegue a Dama de Companhia use-a imediatamente, então você não teria motivo para nomeá-la com a sua Guarda, teria? Pondo-se no lugar da outra pessoa, torna-se mais fácil acertar a ação para eliminar aquele oponente. Aquela pessoa usou um Padre e depois um Príncipe, e decidiu pelo Príncipe bastante rápido, então será que ele tem a Princesa? Ou o Rei? Bem, 50% de eliminar é algo considerável.

Love Letter exige decisões simples, sem complicações e consequências que lhe perseguiram por todo o jogo. No máximo, sua besteira lhe custará a eliminação da rodada (o que pode significar o jogo, mas daí é a vida, reclame dela), e a próxima começará do "zero" (no sentido de que sua chance de vencer é igual a dos outros, não que você não possa estar atrás, ou na frente, na soma de rodadas vencidas). É um jogo, portanto, tático - o que de melhor eu posso fazer com esta carta que acabei de comprar, junto daquela que já tenho em mãos, diante de como está o jogo agora?


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Tema:
Love Letter é, basicamente, um jogo abstrato. Existe, sim, arte temática, e o manual começa até com um bem-vindo texto de ambientação, mas isso deve-se mais ao fato de que o jogo foi inserido dentro de um cenário específico: o Tempest, o mesmo utilizado no Dominare, no Mercante e no Courtier.

O teste de controle de tema pode ser facilmente aplicado aqui: sem mudar regra alguma, usar outro tema. Vejamos se consigo. No Prisão, seu objetivo é fazer a encomenda chegar nas mãos do chefe do crime aproveitando férias e proteção de seus inimigos dentro da cadeia. Mas outros tenentes também querem a atenção do chefe, para obter as benesses de comandar o pessoal enquanto ele está lá dentro. Os personagens são: o Guarda, o Padre, o Advogado, a Visita Conjugal, o Carcereiro, o Diretor da Cadeia, a "Mulher" e o Chefão. No Futebol, seu objetivo é levar a bola até o gol, mas, claro, outros jogadores também querem deixar o dele e o outro time não vai deixar a porta aberta. Os personagens são: o Goleiro, o Lateral, o Zagueiro, o Volante, o Meia, o Ponta de Lança, o Pivô e o Centro-avante. Claro que certas adaptações funcionam melhor do que outras, mas é fácil ver que, mesmo com mais arestas, funcionariam necessitando só de um mínimo de boa vontade por parte dos participantes.

Porém, de forma contrária, é possível ver lógica no funcionamento dos personagens em relação às habilidades destes:
- a Guarda, seja por ter sido subornada, ou por ser bastante zelosa, mantém os indesejados fora. Agora sei lá porque ela tem autoridade para impedir o Rei também (impedir o Príncipe eu entendo, afinal, pode ser ordem do Rei);
- o Padre ouve confissões e obtém informações mais facilmente do que a maioria;
- o Barão age nas sombras, colocando oponentes frente a frente;
- a Dama de Companhia dá as desculpas ("oh, a senhora está indisposta hoje"), servindo de escudo para que certas pessoas não se encontrem;
- basta o Príncipe falar aos ouvidos certas, e as pessoas movem-se para fora da disputa;
- o Rei usa a mão da Princesa como moeda de troca;
- a Condessa, a amiga mais próxima da Princesa, sabe que sua posição é frágil e depende de manter-se no agrado da família real, então quando o Príncipe ou o Rei aparece, ela sai de fininho;
- a Princesa, caso seja exposta que está recebendo mensagens de pretendentes, é posta de castigo.

Contudo isto é minha visão e não passa nem perto de ter qualquer importância e/ou influência durante a partida.


Produção:
É razoável. O Love Letter, pelo menos até sair alguma edição de luxo, premium, extra amada, o que for, sequer tem uma caixa. Ele vem numa embalagem de plástico, que é rapidamente deixada de lado, pois a "caixa" do jogo é um saquinho de feltro vermelho, que é bem-feito, com o nome do jogo bordado e cordões amarelos. Dentro do saquinho vem todos os componentes do jogo, que são:
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- 20 cartas (16 de jogo, 4 de auxílio aos jogadores);
- 1 manual;
- 13 cubos vermelhos.

As cartas, que compõe quase tudo deste jogo minimalista não são de boa qualidade: achei-as apenas OK. São razoavelmente finas e, dada a própria ideia do jogo (adivinhar as cartas dos oponentes), é de suma necessidade proteger a carta com sleeves. Ao menos, se você não é alguém que gosta de usar sleeves em seus jogos, você terá sobra para proteger todas as cartas do Love Letter cinco vezes!

O manual é colorido, em formato de livreto, e bem composto. E parece um daqueles livros com frases de sabedoria para cada dia. Considerando a grande dificuldade de explicar o jogo (nenhuma), a parte inicial é devotada a uma história de ambientação e o restante para o jogo.

Os cubos são... uma decepção. Cubos? Sério? Nem mesmo um conjunto daquelas pedrinhas arredondadas que eu encontro para vender pelo cento? Nem, e muito melhor, por uns corações, de madeira ou plástico? Enfim, ridículo e na primeira chance que tive troquei por coisa melhor.


Diversão:
Então, se o Love Letter é um jogo simples, semi-abstrato, com componentes abaixo da média, o que me fez ficar com ele? Ora, porque ele é divertido! O Love Letter também é um jogo rápido de explicar, que diferencia pouco os novatos dos veteranos, o que significa que todos, independente de seu nível de comprometimento da pessoa com os jogos de tabuleiro, terão chance de não somente jogar bem, como de vencer. Falando em vencer, esse é outro ponto positivo: o formato do jogo permite diversas pequenas vitórias - existe somente uma pessoa que vencerá a partida, mas digamos que a partida seja disputada, é possível que, numa mesa de quatro pessoas, cada uma tenha vencido três rodadas. Assim, mesmo perdendo a partida, haverá diversos pontos de satisfação (por ter vencido uma ou mais rodadas) para os envolvidos.

Uma questão espinhosa da qual o Love Letter esquivou-se muito bem: a eliminação de jogador. Tem quem trema só de ouvir que um jogo inclui essa opção. Eu compreendo o motivo: ser removido da partida cedo, usando mais tempo para assistir do que para participar. Só que no Love Letter a rodada é tão rápida, que a pessoa eliminada não chega a perder o interesse sobre o que está ocorrendo. às vezes é até importante ficar uma rodada "de fora", para analisar com mais cuidado, sem ter que dividir atenção com as próprias cartas e ações, o comportamento dos outros, a maneira como jogam e quais cartas usam e quais cartas seguram.

Considerando o alto nível de confronto (você pode até conseguir vencer sem eliminar ninguém, mas certamente alguém tentará eliminar você), é surpreendente que não tenha ocorrido de alguém ficar magoado, ressentido por uma eventual perseguição, e isso pode ocorrer, com a pessoa na frente sendo alvo das Guardas, dos Príncipes, dos Barões, etc. Mas, nem isso garante uma eliminação e, é mais comum as pessoas preferirem se proteger com uma Dama de Companhia, do que arriscar um Príncipe ou alguma carta acima desta. E isto pode dar certo. Ou seja, o Love Letter não beneficia a agressividade em querer eliminar os outros mais do que beneficia quem quer manter-se "vivo" segurando uma carta de valor numérico alto. Assim, mesmo sabendo que atacar a pessoa na liderança poder ser o melhor para o jogo, proteger-se ou jogar quieto pode ser melhor para você vencer aquela rodada. Portanto, não é algo direto como "se X perder, eu ganho" e, sim, "se X perder, o safado do Y, ou aquele Z que me eliminou na rodada passada, e eu pode vencer, então eu acho que posso mandar o Z para a cova agora, então, que seja". Isso faz com que não haja um foco constante em "elimine o líder!" e, desse modo, quem está na frente tem que, sim, enganar mais, porém não fica sendo um alvo inerte.

De maneira simples posso dizer que nenhuma das partidas que joguei do Love Letter foram sequer aborrecidas, quanto mais ruins. Nem de meu jogo favorito (o Arkham Horror) eu posso afirmar algo assim.


Vale a compra?
Sim, definitivamente sim. Vale comprar até mais de um, para ter alguns preparados para dar de presente quando as pessoas que você conhece quiserem ter suas próprias cópias do jogo. Vai acontecer. Por R$ 50-60 o Love Letter é um jogo em que paga-se pelo desenho do jogo, não pelos componentes. Pelo mesmo valor pode-se comprar um Lords of Scotland, que vem com cinco vezes mais cartas, ou o Chronicle, também do Seiji Kanai, que tem três vezes mais cartas, e também vem com quinze marcadores (e melhores do que cubos safados). Todavia, superada a leve decepção de pagar razoavelmente caro pelo que se tem em mãos, o Love Letter vai mostrar que o valor dele é mais agregado do que material.

O jogo funcionará basicamente em qualquer grupo, com pessoas das mais variadas idades e mesmo para quem tem tempo limitado para jogos. Uma partida completa de Love Letter pode demorar uns 45 minutos, mas nada impede (e, para mim, é usual até) acertar antecipadamente uma quantidade menor de rodadas a serem vencidas para que haja um vitorioso.

Entre os jogos que adquiri recentemente, o Love Letter está no topo na relação custo/benefício.

E bem, é isso!

Abs,

Crédito das imagens, na ordem:
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henk.rolleman
Khedron

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