The Speicherstadt - primeiras impressões

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The Speicherstadt - primeiras impressões

Mensagem por tiagovip em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

Olá!

Aviso que as impressões abaixo, como dito, são as primeiras, com base em uma única partida.



Imagem por W Eric Martin


O básico das regras:

The Speicherstadt é um jogo de nome impronunciável. Ok, tirado isso da frente, digo que as regras estão longe de terem a complexidade do nome. Nele cada participantes representa um comerciante com o interesse de negociar mercadorias, cumprir contratos e, de quebra, manter uma equipe de bombeiros a postos.

No tabuleiro, a cada rodada, são disponibilizadas cartas em número igual ao de jogadores +1. Cada jogador tem 3 trabalhadores. Em ordem de turno, o jogador compromete um trabalhador à uma das cartas. O número de trabalhadores comprometidos à uma carta é igual ao valor que deverá ser pago pelo jogador para obter a tal carta. Assim, se eu sou o primeiro a colocar um trabalhador em determinada carta, ela me custará, a princípio, 1 dinheiro. Se outro jogador entrar na disputa, o valor aumentará, para mim, para 2 dinheiros. Se mais um safado entrar na competição o custo, para mim, passará para 3 dinheiros. E assim em diante.

O primeiro na fila tem a primazia na compra, mas se não puder, ou não quiser pagar o preço inchado, deve abandonar o local e a chance de comprar passa ao próximo, por 1 dinheiro a menos (afinal, o valor é determinado pelo número de trabalhadores ali e, como um saiu, o valor cai em 1). Isso continua até que a carta seja comprada, ou todos abandonem a compra. O mesmo ocorre para todas as 5 cartas. As que são compradas, vão para o jogador que a adquiriu. Se ninguém comprometeu trabalhador à alguma carta ou ninguém quis comprá-la, ela é descartada.

As cartas têm efeitos diversos. Algumas delas são:

- Escritório de contabilidade - aumentam de valor de acordo com o número de cartas do mesmo tipo que o mesmo jogador tiver: 2 / 5 / 9 / 14 pontos);

- Profissões - têm 5 tipos: o provador de chá, o comerciante de especiarias, o comerciantes de tapetes, o assador de café e o vulcanizador. O efeito é o mesmo: transformar uma mercadoria (folhas de chá, especiarias, tapetes, café e borracha, respectivamente) em dinheiro;

- Navios - carregam sempre 3 mercadorias (sorteadas aleatoriamente);

- Contratos - são de três tipos: de 5, 8 e 11 pontos. A diferença entre eles é a quantidade de mercadorias diferentes para que sejam cumpridos: 2, 3 e 4, respectivamente;

- Bombeiros - têm em valores que vão de 1 a 5. Quanto cartas de incêndio surgirem entre aquelas que são dispostas para compra, o jogador (ou jogadores) que tiver o menor valor em Bombeiros perderá pontos (de 1 a 4) e aquele (ou aqueles) que tiver o maior valor ganhará pontos (de 1 a 4);

Existem outras cartas especiais (Banco, Galpão, Porto, Câmara de Comércio, etc) que têm efeitos diversos.



Imagem por fabricefab


Os jogadores usam essas cartas para, claro, ganharem pontos. Após a fase de compra de cartas, os jogadores podem distribuir as mercadorias adquiridas com a compra de cartas de Navio - ou guardadas no Galpão - seja para cumprir Contratos, ou usar cartas de Profissão para converter produtos em dinheiro. Sem o Galpão só é possível manter 1 mercadoria sem a mesma estar alocada em Contratos - o que houver em excesso, pode ser convertido na carta da Companhia de duas formas:

a) Três mercadorias quaisquer em uma outra de qualquer tipo;
b) Duas mercadorias em um dinheiro.

Após a fase de realocar mercadorias, uma nova rodada começa, com o primeiro jogador passando para a esquerda daquele que o foi na rodada anterior. Novas cartas para compra serão reveladas e a disputa por elas começa novamente.

O jogo segue assim até que haja a compra das últimas cartas. Então haverá uma última fase de realocação de mercadorias.

Ao final do jogo, vence quem tiver mais pontos!


A dinâmica do jogo:

The Speicherstadt oferece basicamente a mais pura, e sem abobrinha, relação de oferta e procura.

Se eu tenho algo, de custo X, que quero vender e só tenho um interessado, é melhor eu tratar de vender por X antes que o valor deprecie para F. Agora, se meu produto de valor X tem dois interessados, quem sabe eu não consiga vendê-lo por Y? Quem sabe até Z? Ah, isso seria ótimo. Então vendo a fila de interessados eu anuncio para o primeiro dali: pela bagatela de Z você levará! Dou um sorriso para mostrar que sou tanto honesto quanto gente boa e certamente mereço receber Z.

Você pagará Z? Por algo que poderia custar X? E, pior ainda, deixando-o basicamente quebrado e incapaz de comprar qualquer outra coisa? Qual é o seu limite?



Imagem por henk.rolleman


Dizem que este jogo é de leilão e eu acho que existe certa razão, mas é um leilão invertido: você diz o quanto os outros devem pagar. Você quer esse contrato? Agora que eu pus meu trabalhador aí, vai lhe custar 2 dinheiros, quer pagar isso? O vendedor fica ali, todo animado porque vai receber mais de você, só porque eu cheguei do seu lado e comentei que bonita era aquela mercadoria e que eu pagaria Y por ela. Agora ele está lhe pedindo Y.

Só que o esquema é o seguinte: você ainda terá a primazia na compra, se você quiser, e puder pagar, será seu, sem chance de eu comprar para mim, mesmo que eu realmente quisesse pagar Y ou Z por ela. Porém, se você achar que agora está caro demais, que estão querendo tirar vantagem de você, e então desistir da compra porque o preço subiu, algo curioso (bem, nem tanto, se você entendeu o conceito de oferta e procura) ocorre: o valor para mim não será mais Y. Será X. Mas, como assim?? - você se pergunta. Bem, a questão é que agora não há mais dois interessados na mercadoria, há somente um. Você foi embora, reclamando e sobrou eu lá. O vendedor diz "Y então, certo, senhor? Vou mandar embrulhar...". "Um momento", eu o interrompo. "Pensando bem, aquele senhor que se foi tinha razão. Agora que vejo de perto, isso não vale mesmo Y. Por X eu compraria, mas por Y? Não dá. Bem, tenha um bom dia."

Agora o vendedor tem duas opções: aceitar o X, que é o que aquilo vale sem a pressão no valor ocasionada pelo aumento da demanda, ou deixar de vender esperando tempos melhores. Espere que ainda tem um adendo: mesmo que ele aceite X, eu nem preciso aceitar! Posso só ir embora, satisfeito que o outro comprador foi embora de mãos vazias.

O Speicherstadt é, portanto, um jogo em que pode-se manipular o valor das mercadorias sem mesmo ter o interesse de adquiri-las, mas somente com o intuito de aumentar o custo delas para os outros. Com o bônus de que, se os primeiros desistirem, ganha-se a opção de compra por um preço reduzido!

Assim, a porcentagem de canalhice no jogo é de 100%. Evidentemente eu adorei isso. Quer ser bonzinho vá trabalhar de voluntário num asilo, eles certamente apreciarão seu tempo.


A avaliação:

O tema do Speicherstadt é aborrecido, para dizer o mínimo. Mas quem pode se importar com isso quando o jogo em si é vivaz, entupido de interação e altamente envolvente? Eu não, garanto-lhe. Se par-ou-ímpar fosse bom assim, eu teria luvas especiais para jogá-lo.

É verdade que, desde que conheci o Macao, o Stefan Feld está entre meus designers favoritos. Posição esta só reforçada depois de jogos como o Notre Dame e o Trajan. Não é por acaso que também estou aguardando com expectativa para jogar: Luna, Strasbourg, Castles of Burgundy e In the Year of the Dragon. A lista de desenhos dele impressiona e, certamente um dos menos falados dos jogos dele é o Speicherstadt - muito provavelmente pelo nome em si, mas também porque, a princípio, a disponibilidade dele nos EUA (de onde a maioria de pessoas que eu conheço compra seus jogos) era bastante limitada, destino similar ao que teve o Luna e, depois, porque as próximas novidades do Feld - Castles of Burgundy e Trajan chamaram toda a atenção (Strasbourg também viu-se eclipsado nesse sentido).

Assim, só agora eu tive contato com Speicherstadt. A partida foi bem movimentada, com tensão, decisões e ameaças vindo de todos os lados. Ele não é um jogo complexo - está muito mais próximo do peso do Notre Dame do que do Trajan -, sendo que é possível ensiná-lo em 15 ou 20 minutos sem problema. Afinal tem-se de tomar somente 3 decisões por rodada e, depois, escolher entre comprar ou não. Após isto o que deve ser feito é simples: distribuir mercadorias nos Contratos, converter o excesso em dinheiro (ou em outro tipo de mercadoria) e pronto, nova rodada. De qualquer modo, vá com uma faca entre os dentes, porque certamente alguém estará de olho na mesma carta que você, ou, pior, só irá lá para deliberadamente incomodar.

Uma coisa eu achei estranha, no entanto: dinheiro deveria valer pontos! Sim, eu posso ver que isso poderia ocasionar alguém a fazer um não-jogo, focando-se somente em atrapalhar os demais e evitando comprar o que for, para ganhar 2 dinheiros. Mas que tal 1/2 ponto por dinheiro? Isso dificilmente daria a vitória para alguém que se focasse só em acumular dinheiro, porém permitiria esta ser uma rota adicional para vencer. A Câmara de Comércio, então, só aumentaria o proporção de dinheiro/pontos. Enfim, em um jogo de comércio, dinheiro deveria valer pontos.

A produção do jogo é bastante boa (as moedas, em particular, são bonitas e chamativas), mas ele certamente não precisa de um tabuleiro e poderia ocupar uma caixa menor e, com isso, ter um valor mais baixo, o que poderia aumentar a procura por ele (notaram o que eu fiz aqui?). Uma partida completa dura o prometido: entre 40 a 50 minutos. É surpreendentemente rápido.

Resumo:

Prós
- Jogo rápido, descomplicado e de mecânicas sólidas;
- Várias decisões importantes em uma partida de tempo surpreendentemente curto;

Neutros
- Possibilidade de "perseguir" alguém;
- Alto grau de interação entre os participantes (nada de de multi-player solitário aqui - para mim isso é positivo, mas sempre tem quem reclame disso);

Contras
- Tema de fazer dormir e desconectado com as mecânicas (dinheiro deveria valer pontos!);
- Parece haver poucos caminhos para a vitória (cartas de Contratos são essenciais - quem as cumprem, tem chance de vencer, quem não o faz, perde).

E é isso!

Abs,

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